>Olhares estrangeiros

>Aqui estranhamente falarei sobre três livros que não li e um documentário que não vi. Normalmente não escreveria sobre eles, mas as semelhanças entre as temáticas me chamaram atenção. E, também, quem nunca emitiu uma opinião baseada apenas numa primeira observação? Além do que, escreverei sobre o que acho de comum entre eles e a curiosa recepção que têm tido.
O primeiro é O caçador de pipas, de Khaled Hosseini. O livro conta a história de dois garotos afegãos, e atravessa a história do país: fim da monarquia, comunismo, talibãs. O sucesso, acho, é creditado não só à narrativa, mas também por se passar no Afeganistão, um país que ninguém conhece a não ser pelas guerras e pelos talibãs. Os outros livros “comentados”, aliás, também se passam nesse país: os dois são reportagens.
O primeiro deles é o Livreiro de Cabul, de Asne Seierstad. Segundo livro de não-ficção mais vendido, segundo o Idéias e Livros do JB de 24.02.07. Ele é uma reportagem de jornalista norueguesa enviada ao Afeganistão para cobrir a guerra contra os talibãs. Após o fim do conflito, ela morou por três meses na casa de um livreiro que primeiro resistiu aos comunistas e por fim aos talibãs, para deixar a sua livraria aberta. O livro é sobre esses três meses e o choque cultural entre uma norueguesa e um autoritário muçulmano.
Outro livro que enfatiza o choque cultural e as atrocidades dos talibãs é o da fotógrafa Harriet Logan: Mulheres de Cabul. Ao que parece, é composto por depoimentos e fotos das mulheres submetidas ao regime e ainda em processo de reintegração com as ruas.
O documentário é o Send a bullet, dirigido por Jason Kohn e ainda sem previsão de data de lançamento no Brasil. Ele passou alguns anos aqui produzindo esse filme que tem como temas a violência, a corrupção, a concentração de renda. Soube desse comentário por uma entrevista que Jason deu ao “Segundo Caderno” do jornal O Globo e publicada em 3.2.7. Na entrevista, falou como se estivesse falando de um tema não abordado, como se também a relação que fez entre violência e corrupção fosse 100% original. Certo, ele está vendendo o peixe dele. Mas não, ele não é original e a imagem que se tem do Brasil não é só mulher, carnaval e futebol. Alguns fazem apenas essa associação, mas a visão negativa daqui não é nova nem nos Steites e nem no Brasil. Sendo lançado, verei.
O que esse saco de gatos têm em comum? Primeiro, são olhares estrangeiros sobre o terceiro mundo – à exceção do Caçador de pipas. Segundo, o sucesso que alcançaram. Os três primeiros são sucessos nas livrarias e o quarto ganhou prêmios no Festival de Sundance (cinema independente, EUA).
É certo o fascínio que culturas alheias causam em muitas pessoas. Se assim não fosse, esses livros não seriam publicados, traduzidos, vendidos. O documentário não ga nharia premiação nenhuma. Se as concepções deles têm algo de bom, é oferecer amostragens de realidades diversas.Se têm outros méritos, só vou saber quando conferi-los.
Não desmerecendo totalmente essas iniciativas, tenho algo a criticá-las. Se é verdade que mostram realidades desconhecidas, é também verdade que a ênfase desse tipo de coisa sempre está no que soa absurdo à cultura ocidental – quase um “denuncismo”. Infelizmente, é esse tipo de reportagem que mais faz sucesso e mais é divulgada, é quase como se precisássemos apontar os defeitos dos outros, como se forma de amenizar os nossos e também como maneira de esquecermos os nossos.
Não que corrupção, violência, machismo (exacerbado, o “brando” as mulheres ocidentais sentem e os homens quase sempre não se tocam), etc, não devam ser denunciados. Fechar os olhos para esses absurdos é a melhor forma de deixar que se perpetuem. Mas existem outras coisas a serem mostradas, coisas boas a ser melhor exploradas. Infelizmente, o que se vende mais, em termos de cultura muçulmana (p. ex.),é o absurdo do talibã (não consigo despertar a antropóloga em mim pensando neles). São as mulheres do mundo muçulmano reclamando tendo como parâmetro a cultura ocidental (descontentes sempre há, mas porque só elas têm mídia macissa?), homens que podem ter quatro mulheres (como se todos tivessem). Coisas que seriam melhor compreendidas se houvesse maior conhecimento da cultura muçulmana no Ocidente.
Não entrei em méritos e desméritos políticos dessa questão, até porque o texto já está longo o suficiente para um blog e porque estou caindo de sono aqui. Poderia estar melhor escrito, sei. Mas e a paciência pra revisar? Fica pro próximo.

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8 comentários em “>Olhares estrangeiros

  1. >Nhai Cei, eu enxergo perfeitamente bem o que vc quer passar com esse post…Infelizmente não consigo ver o mundo se preocupando com outras coisas… Imfelizmente, tragédias dão dinheiro… E é disso que vai se falar pra sempre…É uma pena? CLARO… Mas não tem nada que nós possamos fazer pra mudar isso .-.~Eu pelo menos não posso fazer nada… Você que vai ser professora ainda tem a chance de abrir os olhos dos seus alunos, assim como o meu prof abriu os meus… A nossa esperança deve sempre residir no futuro, especialmente se não temos armas pra mudar o presente….Parabéns pelo post =DBeijões moça =***

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  2. >Eu li o caçador de pipas e vi um filme chamado “osama”, que fala sobre a vida de uma menina que tem que se passar por menino no regime talibã para sobreviver.Minha opinião sobre esses depoimentos é a necessidade de mostrar que em qualquer lugar do mundo, qualquer pessoa quer viver feliz, em paz e com dignidade.Mesmo que os textos e produções tenham seu apelo comercial para chamar atenção, ainda acho válido que continue sendo um foco de exposição.

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  3. >bem, realmente “enjoa” quando sempre se aborda uma cultura pelo seu lado ruim, ou de forma expositiva de problemas.. mas isso nao deixa de ser necessario..claro que é legal quando se foge a regra… o interessante é balancear os 2 lados (ler um de cada tipo de vez em quando..)beijo namorada

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  4. >Uma coisa que eu percebo nesses casos é exatamente essa espécie de “rotulação” que as cukturas não ocidentais recebem por causa desse material que é divulgado por aqui, por autores ocidentais, com visões ocidentais sobre o que é bom e ruim. Acho que falta à população a noção de que há muito mais do que lhes é mostrado, e que é possível saber mais, e ter uma idéia maior da realidade desses povos através da consulta à outras fontes. Nãos ei se a população é acomodada, ou se subestima, além dos problemas educaionais que geram esse tipo de comportamento.Ah, só a nível de informação, duas pessoas que eu conheço leram o Caçador de Pipas e acharam extremamente triste. Depois que vc ler, me diga se concorda. 😛

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  5. >Prometo tentar evitar que você morra de sono…Para além de qualquer curiosidade pelas obras e toda a solidariedade às mulheres afegãs, seria útil aguçarmos nossas percepções para prováveis diferenças em torno de idéias como “machismo”, “acomodação”, “sofrimento” etc. Isto talvez ajude a pensar na legitimidade, por exemplo, da noção moderna e ocidental de democracia deslocada para contextos onde não há espaço (na tradição e na história, nas estruturas de pensamento) para abrigá-la. Tudo isto remete à patética atuação dos EUA em episódios recentes no Afeganistão, no Iraque e, antes, no Vietnã. Ou, entre nós, a “missão evangelizadora” jesuítica, que acabou por dizimar as nações indígenas. A propósito, o que pensam, de tudo isso, as mulheres afegãs? Elas querem nossa solidariedade? Como perguntar isso a elas?

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  6. >falar dos ‘erros’ alheios é um modo de esconder as próprias cicatrizes. E nem sempre são mesmo ‘erros’, como tu disse. O que existe é a não-tolerância e a vontade de impor uma cultura sobre a outra. “It’s the american way to live (não só estadosunidense, mas de todo o planeta)”.N sei, mas às vezes acho que alguns países não deveriam se meter em assuntos culturais de outros. Exceto em casos extremos, acho…Sei lá… é só a idéia de um pirralho metido.. xDbjoparabéns

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